Um blog que talvez seja de pequenas reflexões sobre política, filosofia, arte e X-Men. Vamos ver.
Uns amigos no twitter discutiam sobre os novos alvos da onda revisionista, neo-con ou neo-renegada, agora em cima do pobre do Chico Buarque. Eu já havia esbarrado com uma coluna do imbecil do Artur Xexéo publicando uma espécie de errata em cima do uso de um trabalho italiano sobre o Chico para justificar a idéia de que a imagem de resistente do Chico teria nascido como jogada de marketing da sua gravadora italiana. Xexéo citava um historiador da UFF, que por sua vez supostamente citava um pesquisador italiano, que escreveu com manifesta indignação quanto ao uso de sua obra para os fins revisionistas. Mas não tinha tido acesso ao texto do próprio brasileiro. Agora, via meus amigos twitteiros, eu tive. Recomendo a leitura:
Não me recordo, agora, pelo menos, em plena madrugada, de ter lido um texto de história tão ruim quanto essa peça. Digo com sinceridade. É tão ruim que é difícil de comentar, porque se é óbvio que o texto tem uma clara linha subjetiva, isto é, tem um eixo de motivação, objetivamente o texto não tem linha argumentativa alguma. Os supostos argumentos se acumulam sem nem vislumbre de conexão, formando um misto de crítica moralista com propósito revisionista desmistificador, desencantador. Pior, nem mesmo é cínico o texto, é pura e simplesmente estúpido. Pior, os supostos argumentos, além de não serem argumentos para nada como um argumento central, são, em sua maioria, simples non sequitur, um após o outro.
O que o texto quer questionar é a suposta unanimidade do compositor, que estaria ligada a uma espécie de nicho cultural que o autor teria ocupado através da imagem a ele se ligou de o “resistente ideal” à Ditadura Militar. Os supostos argumentos, entretanto, não se dão quanto a esta linha, mas como que se focam em cada um desses pontos isoladamente. Assim, por exemplo, se questiona desde se o Chico deveria ser tão unânime não sendo tão reconhecido internacionalmente quanto Tom jobim ou não vendendo tantos discos quanto Roberto Carlos, até se a imagem de resistente ideal é justa em relação a alguém que não manteve uma posição de rejeição absoluta em relação à Rede Globo, passando por se o cantor, devendo seu sucesso inicial às aspirações de identidade nacional da burguesia e da classe média alta, não teria se elitizado depois, cantando então para as mesmas classes. (Num exemplo, Chico é culpado tanto de ter composto Bom Tempo, música alienada dos tempos tensos de 68, quanto de não ter assumido a mesma música, não a incluindo em seus discos, apesar de sua beleza.) O ecletismo da “crítica” é um tanto desconcertante…
O alvo é minar (“relativizar”, ele diz) o status da unanimidade, enquanto que a aparência de argumento seria, por um lado, a construção da imagem de resistente, que, quer pelo próprio compositor, quer pela mídia ou pela sua audiência, já contém em si algo de desabonador (provavelmente pela suposição de romantização, artificialidade, falta de honestidade ou, pior, de humildade – todas críticas morais), e de outro lado, a suposta injustiça da imagem de resistente. E essa espécie de culpabilização não exatamente confessada que o artigo tenta construir tem uma limitação pode ser chamada de estrutural: praticamente todas as citações e dados que o autor utiliza para relativizar a imagem de resistente do cantor são retiradas de entrevistas do próprio Chico, dadas nos variados momentos em que a imagem do resistente estaria se construindo e disponibilizadas pelo próprio em seu site. E são, na sua maioria, entrevistas com o propósito manifesto de relaxar esta imagem mesma. O que sobra, parece, é que a maior culpa, e isto é de insinuado especialmente quando o historiador aborda o surgimento de Construção, do próprio Chico em ter formado em torno de si a imagem de resistente foi ter composto músicas, peças, livros, dado entrevistas e criado subterfúgios para se exprimir contra o Regime Militar. O maior pecado de Chico foi ter sido resistente…
De resto, há ainda simples má-fé do pesquisador. Por exemplo, um dos pontos (meio que) centrais do artigo é relativizar a perseguição que o cantor sofreu pela ditadura. Assim, a passagem de Chico pela polícia política é ironizada através do exagero da mídia italiana, ressaltando que, ao contrário de Gil e Caetano, Chico só teria sido convocado a prestar depoimento. Só esquece ele de informar que a “convocação” se deu pelos homens do DOPS visitando de madrugada a casa do compositor e levando-o para um interrogatório de várias horas. (Omite ainda outras passagens de Chico pela polícia, nos anos 70.) Também se esforçar para recusar o caráter de exílio voluntário ao tempo que Chico passou na Itália, embora citando os grandes problemas financeiros que o compositor passou por lá. Parece, para o articulista, que Chico foi a Itália brincar de passar perrengue, enquanto podia muito bem ter ficado pelas terras brasileiras. Também omite, na recepção carnavalesca do retorno de Chico da Itália, que esta recepção, longe de indicar uma distensão do ambiente político, foi armada pelo próprio Chico com o propósito de visibilizar sua presença e protegê-lo de uma possível perseguição.
Queria fazer uma seleçãozinha de melhores momentos, mas o PDF não me deixa copiar os trechos. Mas é especialmente divertido ver como o autor levanta certos argumentos e arrola uma citação como justificativa em seguida, com o porém de a citação não conter nem traço do que supostamente deveria justificar. Exemplo, o autor jura que a questão do Chico com a Globo se devia mais a tal diretor autoritário e para isso, em dois momentos distintos, se utiliza de duas citações, em que em ambas não só o Chico levanta outros motivos para sua desavença com a emissora com em nenhuma delas há sequer menção ao suposto diretor.
Enfim, não é história, é um tipo de jornalismo bizarramente mal-feito.
Cosmicídio Atômico
Estudante de Filosofia, formado em história, comunista e fã de Bowie.
Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, Brasil