Um blog que talvez seja de pequenas reflexões sobre política, filosofia, arte e X-Men. Vamos ver.
In: Música
23 ago 2011Ganhei de aniversário o novo disco do Chico Buarque (Chico) e desde então tenho escutado ele algumas vezes por dia. Agora há pouco foi a primeira vez que escutei acompanhando todas as letras, que vem encartadas, aliás, como deveriam todas as letras do Chico, sempre. Venho passar minhas impressões.
A primeira coisa que se nota no disco, facilmente, é o quão diferente ele é do penúltimo disco, Carioca de 2006. Esse, que muitos dizem não gostar, é na verdade muito bom, e já escutei algumas centenas de vezes. Mas era um disco que levava ao extremo uma tendência já presente desde o final dos anos oitenta no autor, a da música feita como por quem olha da janela. Poesia de cronista, dizem, com várias camadas de distância em relação ao que fala. Coisas por vezes vivíssimas, ou muito elaboradas, mas todas, ou quase todas, na mesma toada.
Pois bem, este disco joga a janela fora completamente. Algo que eu realmente não previa, julgava que essa tendência só se consolidaria cada vez mais. O disco é incrivelmente homogêneo, mas não por uma unidade de perspectiva, como os últimos. É um disco claramente marcado por um acontecimento fora de lugar, que parece ter colocado o Chico de volta em terrenos pelos quais já não andava há tempos. É, aberta e desavergonhadamente, aquilo que todas as redações de caderno cultural anunciam: um disco sobre o seu novo namoro.
É deveras divertido ver essa aparição e como o Chico explora essa situação no mínimo curiosa. Desde a primeira música , Querido Diário, o autor apresenta a sua situação esquisita de ser um velho, já começando a ter suas preocupações nebulosas da velhice, surpreendido pela paixão fora de hora. A situação é o clima envolvente do disco todo, a da alegria jovial em meio à penumbra. O resultado é um disco extremamente leve, generoso, de um bem inesperadamente recuperado, para além da terra das expectativas declinantes.
O disco, porém, não é monotemático. Mas a abordagem bem-humorada se expande para outras faixas que também abordam o amor, como Rubato, música que se rouba a ela mesma, ou chegam mesmo à divertida investida nas conexões caóticas da memória que vai perdendo o trilho, Barafunda, numa versão leve do mesmo tópico do seu último romance, Leite Derramado.
Além disso, o disco chega a outros pontos. Há a encarnação, em parceria com Ivan Lins, na composição, e com Wilson das Neves, na execução, do freqüentador da gafieira confiante no seu taco. A tiração de onda, no entanto, não me atraiu muito, já foi usada algumas vezes. Há, também, ainda outra encarnação, em outra parceria, dessa vez com João Bosco, em Sinhá. Desta vez Chico é um escravo no suplício, enredado num destino que concentra nele mais fardos do que pode resistir. É um dos pontos altos do disco.
A bela Nina é talvez o mais próximo que o disco chega dos imediatamente anteriores, com uma espécie de relacionamento hipotético, investigado pela tela do computador. E o único momento de aperto no coração fica na singela Sem Você 2, poema do espírito que se resigna.
Esta última permite ainda ilustrar outro fato notável do disco. Mais do que qualquer outro do qual possa me lembrar, as letras deste são bastante independentes da música, quase que como escritas para um livro de poesias. Exemplificando, com a letra da supracitada:
Sem você
É o fim do show
Tudo está claro, é tudo tão real
As suas músicas você levou
Mas não faz mal.
Sem você
Dei pra falar a sós
Se me pergunto onde ela está, com quem
Respondo trêmulo, levanto a voz
Mas tudo bem.
Pois sem você
O tempo é todo meu
Posso até ver o futebol
Ir ao museu, ou não
Passo o domingo olhando o mar
Ondas que vêm
Ondas que vão.
Sem você
É um silêncio tal
Que ouço uma nuvem
A vagar no céu
Ou uma lágrima a cair no chão
Mas não tem nada, não.
Enfim, é um ótimo disco, que se aloja no seu ouvido e vai se acomodando. Uma prova incrível de vitalidade e de mudança de rumos. É o Chico dizendo: “Mas eu não quebro, não, porque sou macio”.
Cosmicídio Atômico
Estudante de Filosofia, formado em história, comunista e fã de Bowie.
Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, Brasil
1 Response to O novo do Chico.
O amor no tempo da madureza « …ou barbárie.
janeiro 8th, 2012 at 12:14 pm
[...] não pretende fazer uma análise do álbum, coisa que o meu amigo Ivan Martins já fez muito bem aqui. Eu quero falar sobre outra coisa: sobre amor. E sobre [...]