Um blog que talvez seja de pequenas reflexões sobre política, filosofia, arte e X-Men. Vamos ver.
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22 jan 2011Terminei agora, nesse instante, de ler muito rapidamente, em uma madrugada e um final de manhã, essa pequena novela de Dostoiévski, que é tão admirável quanto qualquer outra obra do autor (que eu tenha lido, claro). Como me acostumei recentemente, li também o breve posfácio acrescido na edição da Cosac Naify e a orelha, que comentam a estrutura e temática do livro. Sempre evitei ler essas notas sobre obras, pois além de em geral discordar bastante da maioria, me sinto invadido de qualquer maneira em minha apreciação da obra. Para piorar, o tom que a crítica literária costuma assumir muitas vezes me parece cínico, antes inteligente que estético. Porém, como disse, passei a ler esses posfácios, com certo esforço de estômago, mas também para confronto com as minhas próprias impressões, que não se beneficiam sendo isoladas. E, por fim, desenvolvi também um respeito salutar pelas interpretações, afinal às vezes bastante sinceras, e, mesmo, até inspiradas.
Enfim, acima de qualquer outro motivo, passei a desenvolver o pensamento especialmente pela discordância, hábito antigo, reforçado pelo estudo e pela política. Estender esse hábito a impressões estéticas passou por buscar desfetichizar a minha própria relação com a arte. Dessa maneira, e para pôr fim ao falatório, retomo o ponto das notas sobre Uma criatura dócil. A crítica presente na dita edição vê na história um estudo sobre a opressão, sobre o poder tirânico de um homem definitivamente mesquinho sobre a moça dócil e do prazer vil da dominação. Vê, também, como não poderia deixar de ver, o trágico dessa relação, o desencontro e descompasso entre as criaturas e o desastre como fim inevitável do esquema. O protagonista é um homem “do subsolo”, isto é, uma alma consumida por uma torpeza de caráter, por um emaranhado de tendências conflituosas e inquietantes, de baixa potência, mas profundamente enraizadas, como que naturalmente as mais próprias ao homem (ou a alguns homens, talvez os mais civilizados), se fosse possível a ele mesmo se deparar face a face com este abismo, muito mais insidioso que arrebatador, e que, entretanto, exige uma enorme coragem e esforço para dele escapar. (Esta, entretanto, é só a imagem que eu mesmo tenho do subsolo, que pode ser bastante distinta para a crítica.) De fato, é evidente a ligação desta novela com Memórias do Subsolo, escrita doze anos antes. Em ambos há o longo monólogo e a verborragia, em ambos o protagonista é uma criatura profundamente afundada neste subsolo. As diferenças, entretanto, são muitas. Enquanto em Memórias o personagem discursa e tagarela, retirando prazer da apresentação mais abjeta que pode de si mesmo enquanto é relativamente conciso na contraparte narrativa de seu relato, a parte verdadeiramente trágica, que fecha seu destino àquele homem doente que se apresenta, em Uma criatura dócil o penhorista não tem idéia clara nem de seu próprio caráter, nem do lhe aconteceu. Este busca apreender a sua própria história, em aberto desespero incessante de perguntas que nenhuma resposta poderia resolver. Em Memórias o desespero é o do próprio leitor, ao ver emergir o subsolo, a doença.
A crítica, porém, decifra o que escapou ao protagonista, tanto sua história, de lógica mercantil e “pendular”, quanto seu caráter, “tirânico”. A moça se torna objeto do agiota, que de fato a todo momento disputa o domínio na relação com a criatura infantil. A questão, entretanto, me parece residir no caráter dos sonhos do agiota. Ele sonha em ser decifrado, ou melhor, em que a moça encontre nele o caráter nobre que a sua vida inteira pareceu negar. Na pureza daquela está a sua esperança. Entretanto, esta esperança é uma iniqüidade a mais na natureza do agiota, um apetite por obter algo de valioso, reconhecimento por outro e para si mesmo, que afaste as suspeitas sobre seu próprio valor e ainda lhe garanta a devoção completa da sua esposa, ou se trata de outra coisa? Para mim a tragédia consiste justamente nessa esperança. Ao planejar para eles um desfecho absoluto, um amor completo, sem fracionamento, o penhorista só pode se apresentar como um enigma, e sua resposta, que a pureza juvenil da moça, natural, gratuita, reconheça a nobreza experimentada, obtida de alguma maneira obscura na vida do agiota, talvez na aversão que tem pelo ridículo, pela severidade que se impôs, ou talvez ainda pelo próprio desafio que lança silenciosamente à jovem, em que o reconhecimento do seu valor que anseia encontrar nos olhos da jovem testa também a capacidade da jovem de fazer passar a sua docilidade do estado pueril, natural, para uma docilidade sublime, resistente. A relação dos dois, então, mobiliza todas as tendências iníquas do agiota, num jogo de poder exercido pelo silêncio raramente pontuado, que mede o desenvolvimento dos planos do agiota, buscando sempre decifrar os sinais da própria jovem, imersa, entretanto, num silêncio muito mais completo. Só a quebra do silêncio, enfim, revela a distância insondável entre a fantasia do agiota e a realidade, seja esta qual for. A tentativa desesperada, entretanto, de implodir a distância entre os conjuges só poderá dar fecho ao desastre do agiota.
Apesar da brevidade da história, com certeza ela abarca muitos aspectos a serem avaliados e interpretados. Não pretendo de maneira alguma realizar uma interpretação exaustiva, mas só marcar um ponto bem específico, que considero que a interpretação contida nas notas da edição da Cosac Naify não privilegia. O que salta aos meus olhos em Uma criatura dócil é ver mais uma vez a vaidade como uma tragédia, nascendo o orgulho da consciência de seus defeitos e tendências mais desprezíveis e, mais importante, da consciência de sua própria fraqueza em superar essas tendências, da covardia rematada em pusilanimidade. Não é, porém, uma conclusão moralista. Dostoiévski não se aproxima da corrupção com tema ou objeto, nem investiga suas causas, ou a denuncia. Trata, antes, do horror que é a sublimação (ela mesma necessariamente fracassada) de uma vida mutilada. É, assim, uma apresentação desse horror, e um combate em seus próprios termos com ele. Sem ser uma prescrição ética, o autor não deixa de colocar em cena as suas próprias armas, um entendimento agudo para percorrer as linhas do acontecimento trágico e a insistência, não sem riscos, em fazer emergir o problema ético: a enorme coragem exigida para fazer do intenso conflito dos movimentos psíquicos uma dinâmica de si, de, assim, tomar responsabilidade da sua própria vida. Coragem e esforço, labor, que é a coragem desdobrada na vivência do tempo.
Uma criatura dócil traça de forma negativa (provavelmente a única forma que pode ser apresentada como definitiva – tal como se definitiva) esta luta, no fracasso em ter-se consigo sua própria definição, numa fuga para frente, para um outro que só pode ao mesmo tempo ser e não ser cultivado para a tarefa de apresentar para o agiota a sua própria verdade. Fracasso e embate se desenvolvem no mesmo trilho, ambos, ocorrendo, não podendo porém colidir, até que os caminhos se fechem, o que só pode se dar de fora. Enfim, a apresentação de Dostoiévski prima pela extrema concretude de sua construção, da apreensão de uma questão em sua implicação efetiva. Afinal de contas, é simplesmente uma obra admirável.
Cosmicídio Atômico
Estudante de Filosofia, formado em história, comunista e fã de Bowie.
Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, Brasil
1 Response to Sobre “Uma criatura dócil” de Dostoiévski
Camila
fevereiro 21st, 2011 at 4:51 am
coisa, tá tarde pra caralho e o teu verbo tá cada vez mais reluzente. muito muito foda. mandou nessa do sonho, o cara encerra aos dois nessa esperança. gostei muito também do que diz do deslocamento da desesperação na primeira parte do memórias, que é um texto em que o dost. está de corpo colado à página, realmente, quase um relato sádico. em outras novelas essa intensidade passa a um herói mutilado (jogador, criatura, nietochka) e em outras à trama vertiginosa de acontecimentos (irmãos, demônios) depois falamos, sabe o que, preciso reler crime e castigo e tentar surrupiar essa edição da criatura de algum lugar! e ainda que bom que o dosto faz os orelhistas se cagarem! viva o homi!!