Um blog que talvez seja de pequenas reflexões sobre política, filosofia, arte e X-Men. Vamos ver.
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5 out 2010Uns anos atrás, passeando pelos muitos canais a cabo, procurando por uma distração que não me contraísse o estômago (uma exigência bem modesta, enfim, se pedir algo que não envilecesse o caráter seria certamente demasiado), encontro enfim um filme de Ingmar Bergman. Bergman é aquela coisa, né, muita beleza, embalada em sueco, angústia existencial e dramas familiares. Enfim, eu passeando, Bergman encontrando. O filme tava exatamente no início, o que me impediu de usar a regra própria de nunca ver um filme potencialmente bom senão pelo seu começo. Perdida a oportunidade de deixar o filme passar, fui assistir o tal filme, do qual não lembro de maneira alguma o nome. De fato, só assisti a uns dez minutos do filme, a cores, em que um homem chegava de bicicleta (ele, o grandão de sempre, o cruzado d’O Sétimo Selo, o pai da donzela da Fonte da Donzela). O homem cruzava uma porteira, num sol minguante, adentrava uma casa bastante pequena, encontrava alguém, trocando algumas palavras suecas. Resumindo, o filme menos passava que transcorria[1], enquanto o meu instinto de auto-degradação me lembrava de um mundo exterior (na verdade, da cascata de canais proximamente situados) povoado de formas de rápida apreensão, desprezo a qualquer modo de apreensão minimamente ativo e conseqüência intelectual. Resumindo, a tentação do gozo perverso de optar por ser um idiota. Em algum lugar em meio a esta odisséia do homem em sua bicicleta adentrando uma casa pequena em algum lugar um tanto amarelado da Suécia, entretanto, e realmente não me recordo de se antes, se depois, durante, aparece em um close bastante fechado o rosto de Liv Ullmann, jovem e linda, com muitas palavras em sua boca, das quais não me recordo a língua. Interpelada, respondia, confessando alguma coisa, com uma ou duas lágrimas estacionárias, e o rosto acossado pela câmera. O rosto estava todo atravessado, com muito mais linhas de tortura interna do que seria possível transparecer. Era um rosto imortal, enfim, que não caberia em outro lugar senão naquela tortura, naquela confissão entretanto tão pouco definitiva. Um sorriso por vezes atravessava também o rosto, desenhando por fim o desespero. Ele ia e voltava, não podendo romper em nada naquele quadro de movimentos encenados. Como disse, era um rosto eterno, absolutamente próprio, impossível de se desenrolar em outros movimentos, como tampouco de se performar duradouramente. Um tal rosto, nunca mais vi Liv Ullmann performar, e duvido que o tenha feito. O rosto e a cena se pertenciam exclusivamente. Não faço idéia de com que palavras Bergman ocupou aquele momento. Nunca, enfim, passei ao momento seguinte, muito embora talvez tenha sido o do homem da bicicleta. Sem ter idéia de que filme era, nunca pude retornar a ver o rosto, de o momento que o filme partiu para outra direção, e eu para outro filme. Não poderia, de maneira alguma, me lembrar desde então quantos filmes bons deixei de ver para fazer qualquer coisa prosaica. Mas anos depois, em momentos sortidos, em algumas madrugadas, ainda me lembro de todas as linhas visíveis e invisíveis deste rosto de Liv Ullmann.
Cosmicídio Atômico
Estudante de Filosofia, formado em história, comunista e fã de Bowie.
Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, Brasil
4 Responses to O rosto exaustivo de Liv Ullmann
Mariana Bedran
outubro 5th, 2010 at 10:58 pm
Tem uns 10 filmes dirigidos pelo Bergman com a Liv Ullman: http://www.imdb.com/search/title?count=&roles=nm0000005,nm0880521
É só assistir todos eles…
Zacca
fevereiro 16th, 2011 at 6:24 pm
Que blog bonito, Ivan…
Paulo
abril 6th, 2012 at 10:22 pm
O filme é a paixao de ana
Ivan
abril 17th, 2012 at 8:11 pm
Muto obrigado, Paulo!